Poemas em Português

 Ao Ver os Mármores de Elgin

Fraco está meu espírito - a mortalidade
    Oprime-me demais, qual sono indesejado;
    Cada pico ou abismo de divino fado
De que não deixo de morrer me persuade,
Morrer como águia enferma, o olhar ao céu voltado.
    É contudo um prazer amável prantear
    Que eu os nebulosos ventos não haja de guardar
Frescos para o olho da manhã, mal descerrado.
Essas glórias que a ideia forma vagamente
    Cercam de intensa má vontade o coração:
Tais maravilhas trazem dor e confusão
    Que mesclam a grandeza grega com o inclemente 
Passar do velho Tempo - com um mar fremente
     - Um sol - a sombra de sublime condição. 

 

Hino à Tristeza (IV, 146 - 290)

                   “Ó Tristeza,
                   Por que tomas
A rubros lábios o matiz nativo da saúde?
                    Para dar rubores de donzela
                    Às moitas de roseiras brancas?
Ou tua mão de orvalho é a ponta das boninas?

                   “Ó Tristeza,
                   Por que tomas
Ao olho do falcão o ardor brilhante?
                   Para dar luz ao vaga-lume
                   Ou, em noite sem lua,
Tingir, em praias de sereia, a inquieta água do mar?

                   “Ó Tristeza,
                   Por que tomas
A uma plangente voz canções suaves?
                   Para dá-las, na noite fresca,
                   Ao rouxinol
Que possas escutar entre os serenos frios?

                   “Ó Tristeza,
                   Por que tomas
À alegria de maio o júbilo do coração?
                   Nenhum amante pisaria
                   A primavera em sua fronte,
Dançasse embora desde a noite até o raiar do dia,
                    - Nem flor alguma languescente,
                    Tida por santa para o teu recesso,
Onde quer que ele folgue e se divirta.

                    ”Ó Tristeza
                    Eu desejei bom-dia
E pensei deixá-la para trás, bem longe,
                    Mas satisfeita, satisfeita,
                    Ela quer-me ternamente;
É-me tão constante e tão amável:
                    Eu queria enganá-la,
                    Assim deixando-a,
Mas ah! ela é-me tão constante e tão amável.

“Sob as minhas palmeiras e do rio à margem
Eu sentei-me a chorar: em todo o vasto mundo
Não havia ninguém para indagar por que eu chorava:
                    Assim fiquei
A encher de lágrimas as taças do nenúfar,
                    Lágrimas frias como os meus temores.

“Sob as minhas palmeiras e do rio à margem
Eu sentei-me a chorar: que noiva enamorada,
Se a ilude um vago pretendente, ao vir das nuvens,
                    Não se oculta nem se vela
Sob escuras palmeiras e de um rio à margem?

“E ao sentar-me, por sobre os morros azul-claros
Veio um barulho de foliões: os riachos
Lançaram-se da cor da púrpura no vasto rio
                    - Era Baco e seu cortejo!
Falou a trompa ardente e vibrações de prata
Dos osculantes címbalos fizeram grande ruído
                    - Era Baco e seus parentes!
Como para vindima errante eles chegaram
De verdes folhas coroados, rosto em fogo;
Todos em dança delirante pelo ameno vale,
                    Para te afugentar, Melancolia! 
Oh então, oh então passaste a simples nome!
E eu te esqueci, como o azevinho com suas bagas
Esquecem-no os pastores quando, em junho,
Os altos castanheiros tapam sol e lua:
                     - Precipitei-me na loucura!

“De pé, estava no seu carro o jovem Baco
Brincando com seu dardo de hera, quase que a dançar,
                     E rindo de soslaio;
- Fios de vinho carmesim manchavam
Seus nédios braços brancos e seus brancos ombros
                     Para com suas pérolas mordê-los Vênus:
E Sileno em seu asno perto cavalgava,
Alvejado com flores ao passar
                     E ebriamente bebendo aos grandes tragos.

“Joviais donzelas, donde vínheis? Donde vínheis?
Tantas e tantas e com tanto júbilo?
Por que deixastes os retiros desolados,
                     Os alaúdes e mais branda sorte?
- ‘Seguimos Baco! Baco a se mover veloz,
                     Conquistador!
Baco, o jovem Baco! mal ou bem suceda,
Dançamos diante dele pelos vastos remos:
Vem para cá, formosa dama, e junta-te
                     Ao nosso doido canto!’

“Donde vínheis, festivos Sátiros! donde é que vínheis?
Tantos e tantos e com tanto júbilo?
Por que deixastes vossos florestais abrigos,
                     Vossas nozes na fenda do carvalho?
- ‘Pelo vinho deixamos a árvore e as sementes;
Pelo vinho deixamos landa e giestas amarelas,
                      E os cogumelos frios;
Pelo vinho seguimos Baco pela terra;
Deus das copas sem fôlego, do júbilo chalrante!
- Vem para cá, formosa dama, e junta-te
                      Ao nosso doido canto!’

“Passamos largos rios e montanhas grandes
E, salvo quando Baco estava em sua tenda de hera,
Avante iam o tigre e o ofego do leopardo,
                      Com elefantes da Ásia:
Avante essas miríades - com canto e dança, zebras
Listradas e lustroso empino de cavalos árabes,
Aligatores com seus pés palmados, crocodilos
Levando no escamoso dorso, em filas, nédias,
Risonhas crianças imitando a grita dos marujos
E a valente labuta dos remeiros de galera:
Com fingidos remos e sedosas velas passam
                       Sem pensar em vento nem maré.

“Nas panteras em pêlo e jubas de leões montados,
Da retaguarda à frente eles percorrem as planícies;
Viagem de três dias num momento é feita:
E sempre, ao despontar do sol,
Com chuço e trompa caçam pelas selvas,
                       Em irascíveis unicórnios.

“Vi o Egito de Osíris ajoelhar-se
                       Ante a soberania da coroa de parreira!
Vi a tostada Abissínia erguer-se e então cantar
                       Ao som dos címbalos de prata!
O vinho que domina vi ardoroso penetrar
                       Na vetusta e feroz Tartária!
Abaixarem, os reis da índia, os cetros só de jóias
E atirar dos tesouros uma saudação de pérolas;
De seu místico céu o grande Brama geme
                       E os sacerdotes dele se lamentam,
A um relance do jovem Baco embranquecendo.
- A estas regiões eu vim acompanhando-o,
Opresso o coração, cansada - assim, deu-me o capricho
De errar nestas florestas tenebrosas
                       Sozinha, sem nenhuma companhia:
E tudo eu disse-te que podes escutar.

                        ”Jovem forasteiro!
                        Tenho viajado muito
Em busca do prazer por todas as regiões:
                        Ai! para mim ele não é! 
                        Enfeitiçada, certo, eu devo estar,
Para perder em queixas minha virgem mocidade.

                        ”Vem pois, Tristeza!
                        Dulcíssima Tristeza! -
No colo nino-te como se filha minha!
                        Eu pensava deixar-te
                        E te iludir,
Porém no mundo inteiro és tu a quem mais quero agora.

                        ”Não há ninguém,
                        Não, não, ninguém a não ser tu
Que console uma pobre virgem tão sozinha:
                        És a mãe dela,
                        O seu irmão,
Seu companheiro e pretendente em meio à sombra.” 

 

Um Sonho: Depois de Ler o Episódio de Paolo e Francesca, em Dante

Como Hermes voou com suas penas, levemente,
    Quando Argos, aturdido, desmaiou e dormiu,
Assim, na flauta délfica, esta alma indolente
    Assim encantou, assim venceu, assim extinguiu
Os cem olhos de nosso mundo, este dragão,
    E assim fugiu, ao vê-lo assim adormecido,
Não para o Ida de céus frios de neve, não,
    Nem para Tempe, que já viu Jove sofrido:
Para o segundo círculo do Inferno, antes,
    Onde em remoinho, na lufada - ou no tufão-
De chuva ou gelo, não precisam os amantes
    Dizer suas mágoas: lábios pálidos vi então,
E pálidos beijei, bela a forma com a qual
Flutuei, ao léu daquele triste temporal 

 

Hino a Pã (I, 232 - 306)

    Ó tu, cujo amplo teto de palácio se ergue
Sobre rugosos troncos, a cobrir de sombra
Cicios eternos, o negror, a vida e a morte
De flores invisíveis em pesada paz;
Que adoras ver as Hamadríades comporem
O cabelo desfeito, onde o avelal sombreia;
E sentas para ouvir, durante horas solenes,
A triste melodia dos caniços juntos
Em sítios desolados, onde com a umidade
A cicuta aflautada cresce a estranha altura;
Pensando em como te sentiste contrariado
E melancólico ao perder Sirinx, a bela,
- Pela fronte de leite de tua amada,
Pelos trêmulos meandros que ela percorreu,
Ouve-nos grande Pã!

    Ó tu, por cuja paz que abranda a alma, as rolas,
Pondo paixão na voz, arrulham entre os mirtos
Na hora em que vagueias ao cair da tarde
Pelos prados de sol, que os flancos delimitam
De teus reinos brejosos: tu a quem as figueiras
De largas folhas predestinam já os frutos
Maduros; as abelhas de amarelo cinto,
Seus favos de ouro; os campos das aldeias nossas,
Favas de bela flor e trigo com papoulas;
O pintarroxo a piar, filhotes que, ora em casca,
Cantarão para ti; os morangos rastejantes,
Seu frescor estival; ninfas de borboletas,
Suas asas mosqueadas; sim, o ano em botão
As suas perfeições - acerta-te depressa,
Pelo vento que agita o pinho da montanha,
Ó divino selvagem!

    Ó tu, para quem correm sátiros e faunos,
Prontos para servir; quer para surpreender
A lebre que se agacha meio a dormitar;
Ou escalando precipícios escabrosos
Para salvar da goela da águia os cordeirinhos,
Ou para pôr de novo, com atração oculta,
Os pastores perdidos no caminho certo,
Ou para andar arfante em torno ao mar de espumas,
Ou para recolher as conchas mais bizarras
Para que as jogues aonde as Náiades se acolhem
E, oculto, rias quando espiarem para fora;
Ou para que te encantem fantasiosos saltos
Quando elas se entrejogam na cabeça argênteas
Glandes de roble e as pardas pinhas doa abetos
- Por todos esses ecos em redor de ti,
Ó, escuta-nos, rei sátiro!

    Tu que percebes o ruído das tesouras
Se um carneiro, a balir, de quando em quando vez
Juntar-se aos já tosqueados; tu, que a trompa soas,
Se os javalis, talando os tenros cereais,
Iram o caçador; que em torno à granja tocas
Para afastar a mangra e os danos do mau tempo;
Tu que estranho nos dás indefiníveis sons
Que vêm desfalecer no côncavo dos vales
E languem tristemente nos urzais estéreis;
Temível abridor das portas misteriosas
Que levam ao saber universal - contempla,
Grande filho de Dríope,
Tantos que vieram para realizar seus votos,
Com folhas sobre a testa!
 
    Persiste sendo o abrigo não imaginável
De solitárias reflexões, como as que brincam
Com a compreensão até os próprios confins do céu
E põem então a mente vã; sê a levedura
Que ao se expandir nesta massuda terra triste
Dá-lhe um etéreo toque: - um novo nascimento;
Persiste sendo um símbolo da imensidão;
Um firmamento refletido por um mar;
Um elemento a encher o espaço intermediário;
Um ignoto - mas chega: humildes nós velamos
A fronte, erguendo as mãos; modestos inclinando-nos
E erguendo até aos céus um grito que os lacera,
Conjuramos-te a ouvir o nosso humilde peã,
Sobre o monte Liceu! 

 

Se Tenho Medo

Se tenho medo de meus dias terminar
   Antes de a pena me aliviar o espírito, antes
De muito livro, em alta pilha, me encerrar
   Os grãos maduros como em silos transbordantes;
Se vejo, nas feições da noite constelar,
   Enormes símbolos nublados de um romance
E penso que não viverei para copiar
   As suas sombras com a mão maga de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
   Formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
   Do amor irrefletido! - então no litoral
Do vasto mundo eu fico só, a meditar,
Até ir Fama e Amor no nada naufragar.

 

A Fantasia

Que a alada Fantasia vague sempre,
Nunca acharemos o Prazer em casa.
A um toque só, o doce Prazer se esfaz,
Como bolhas se a chuva tamborila;
Que a alada Fantasia erre por meio
Do pensamento que vai sempre além;
Abri a porta que engaiola a mente,
 E ela, arrojando-se, voará até as nuvens.
Oh, doce Fantasia! fique livre;
Os gozos do verão com o uso gastam-se,
E fana-se a fruição da primavera
Como se fana o seu florescimento;
Também no outono os frutos de vermelhos lábios,
Rubescendo através de bruma de orvalho,
Enjoam se provados: que fazer,
Portanto? Senta-te à lareira, quando
A lenha seca esplendorosa queima,
Espírito da noite de um inverno;
Quando a terra silente se recobre,
E a neve endurecida o jovem rústico
Sacode-a do calçado que lhe pesa;
Quando a noite se ajunta ao meio-dia
Numa conspiração de negro tom
Para banir do céu o entardecer.
Senta-te aí, e envia para fora,
Com a mente que sozinha se intimida,
A Fantasia, com poderes plenos,
Envia-a! Tem vassalos dedicados:
Ela trará, apesar do frio extremo,
Belezas já perdidas pela terra;
Ela trará, reunidos, para ti,
Os encantos completos do verão;
Os botões e as campânulas de maio,
Da úmida relva ou de espinhoso ramo;
E a riqueza que o outono acumulou
Com sua quieta, misteriosa ação:
Ela misturará esses prazeres -
Como três vinhos certos numa taça,
E tu os tragarás, ouvindo então
Ao longe, claras, as canções da ceifa,
O murmúrio do trigo ao ser cortado;
Os pássaros louvando em sua antífona
A manhã, e no mesmo instante - escuta!
É a cotovia ao iniciar-se abril,
A gralha-calva, com um grasnido ativo
Em busca de raminhos ou de palha.
Contemplarás, de um só golpe de vista,
A margarida e, a par, o malmequer;
O lírio de alvas plumas e a primeira
Primavera que se mostrou na sebe;
Na sombra, do jacinto a flor, uma rainha
De safira se maio vai em meio;
E cada folha, a cada flor mostrando
As pérolas do mesmo temporal.
O ratinho silvestre, tu o verás
Magro a espiar de seu sono enclausurado;
E a serpente emaciada pelo inverno
Deixar a pele em riba ensolarada;
Verás, no ninho, pintalgados ovos
A chocar no espinheiro, quando a asa
Da fêmea da avezinha permanece
Sem se mexer no seu musgoso ninho;
Depois o alarme e a precipitação
Quando a colméia expede o seu enxame;
As glandes que ao cair maduras ruídam 
Quando cantam as brisas outonais.
Oh, doce Fantasia! fique livre,
Todas as coisas gastam-se com o uso.
Onde está a face, muito contemplada,
Que não se fane? Onde estará a donzela
Que haja lábios maduros sempre jovens?
Onde é que está o olhar, embora azul,
Que não se canse? Onde se encontra o rosto
Que se deseje ver em toda a parte?
Onde está a voz, macia seja embora,
Que se goste de ouvir a todo instante?
A um toque só, o doce Prazer se esfaz,
Como bolhas se a chuva tamborila.
Que a alada Fantasia então encontre
A bem amada para o teu espírito:
Como a filha de Ceres, de olhar doce
Antes de o deus do inferno lhe ensinar
Como franzir o cenho e repreender;
Com uma cintura e com uma ilharga branca
Tal como a de Hebe, quando a sua faixa
Do fecho de ouro desprendeu-se, e abaixo
A veste deslizou-lhe até aos pés,
Quando ela segurava a doce taça,
E Jove enlangueceu. - Rebenta a malha
Do sedoso torçal da Fantasia;
Rompe-lhe a corda da prisão, depressa,
E ela trará alegrias desse gênero.
Que a alada Fantasia vague sempre,
Nunca acharemos o Prazer em casa. 

 

Esta Mão Viva

Esta mão viva, agora quente e pronta
Para um sincero aperto, se estivesse fria
E no silêncio gélido da tumba,
Viria de tal forma te obsedar os dias
E esfriar-te as noites sonhadoras
Que quererias esgotar o sangue de teu coração
Para que em minhas veias -
Pudesse inda uma vez correr a vida rubra
E tranquila tivesses a consciência:
- Vê-a, aqui está, estendendo-a para ti. 

 

Ode Sobre a Indolência

                                                                 “Não trabalham nem fiam”



Certa manhã vi três figuras de perfil,
   De cabeça inclinada as três, e de mãos juntas;
E vinha uma após outra com sereno andar,
   Usando plácidas sandálias, vestes brancas;
Passaram, quais figuras de marmórea urna,
   Quando a girarmos para ver o lado oposto;
      Voltaram, como quando uma vez mais viramos
A urna, e então retornaram as primeiras formas;
    Eram-me estranhas, como em relação a vasos
      Pode ocorrer com doutos no saber de Fídias. 

II

Como foi que, ó Imagens, não vos conheci?
    Como viestes ocultas com tão quieta máscara?
Era silente ardil, bem disfarçado para
    Levar furtivo e pôr ociosos os meus dias?
Madura estava a hora sonolenta. A nuvem
    Mais que feliz de uma indolência de verão
      Entorpeceu-me o olhar; meu pulso fraquejava;
Não doía a dor, nem o prazer tinha inda flores:
    Por que não vos fundistes, a deixar-me o espírito
       Deserto do que quer que fosse - exceto o nada?

III

Terceira vez passaram perto, e enquanto isso
    Voltaram um momento o rosto para mim;
Depois esvaeceram, e, para segui-las,
    Ardi e ansiei por asas, pois reconheci-as;
A primeira, formosa virgem, era o Amor;
    A segunda, a Ambição, de palidez nas faces
      E sempre atenta com seus olhos fatigados;
Na última, que quanto mais censuram tanto
    Mais eu amo, donzela, extremamente indócil,
      Reconheci o meu demônio, a Poesia.

IV

Esvaeceram, e eu, certo, queria asas;
    Ó, loucura! O que é o Amor? e onde está ele?
E essa pobre Ambição! nasce de um breve acesso
    De febre no pequeno coração de um homem;
Quanto à Poesia! - ao menos para mim não traz
    Prazer que iguale os meios-dias sonolentos
      E as tardes cheias de indolência toda mel;
Ó, que a amargura não atinja a minha vida
    E assim jamais eu sabia como as luas mudam
      Nem ouça a voz intrometida do bom-senso!

V

Por que, ai! terceira vez elas passaram perto?
    Meu sono, tinham-no bordado vagos sonhos;
Minha alma tinha sido relva borrifada
    Por flores, por inquietas sombras, raios frustros:
Não houve tempestade na manhã nublada,
    Com as lágrimas de maio a lhe pender das pálpebras.
      Folhas novas de vide opressas na janela
Por onde entrava a tepidez das brotações
    E a voz do tordo, ó Imagens! era dar-me adeus!
      Em vossas vestes não caíra pranto meu.

VI

Três Fantasmas, adeus! Não me podeis erguer
    A fronte de seu fresco leito, a grama em flor,
Não me atrairia ser nutrido com elogios,
    Qual cordeiro de estima em farsa emocional!
Desvanecei-vos suaves; sede uma vez mais
    Figuras mascaradas na urna sonhadora;
      Adeus! Tenho visões para o correr da noite
E para o dia visões débeis e copiosas;
    Sumi, Fantasmas, deste espírito indolente,
      E entrando pelas nuvens, nunca mais volteis! 

 

Ao Compulsar, Pela Primeira Vez, o Homero de Chapman

Já por impérios de ouro eu muito viajara,
    Diversos reinos vira - e quanto belo Estado!
    Já muitas ilhas, a ocidente, eu circundara,
As quais em feudo Apolo aos bardos tinha doado.
Eu já sabia que em país mais dilatado
    Homero, o que pensava fundo, governara:
    Porém seu límpido ar não tinha ainda aspirado,
Até que ouvi a voz de Chapman, brava e clara.
Como o que espreita o céu e colhe na visão
    Algum novo planeta, assim fiquei então;
Ou como quando - de águia o olhar - Cortez nem bem
    O Pacífico havia dividisado, além -
Seus homens a se olhar, supondo com aflição -
    E ficou sem falar, num pico em Darien. 

 

Bardos da Paixão e da Alegria

Ó Bardos da Paixão e da Alegria,
Vós deixastes na Terra as vossas almas!
Tentes almas também no paraíso,
Que vivem outra vez em regiões novas?
Sim, e comungam as do paraíso,
Com as esferas do Sol e com as da Lua;
Com o sussurro de fontes admiráveis
E com as vozes que falam no trovão;
Com o murmúrio das árvores do céu
E uma com outra, em doce bem-estar
Nos elíseos reuvados assentados,
Onde cheiram a rosa as margaridas
E a própria rosa adquire uma fragrância,
Um odor que na terra não existe;
Onde gorjeia o rouxinol um canto
Nem sem sentido, nem como que em transe,
Mas divina verdade melodiosa;
E contos e douradas narrações
Que versam sobre o céu e os seus mistérios.
Assim viveis lá em cima, e ao mesmo tempo
Aqui na Terra vós viveis de novo;
E as almas que deixastes ao partir
Ensinam-nos, aqui, como encontrar-vos
Onde se alegram vossas outras almas
Sem nunca adormecer, nunca saciar-se.
Vossas almas terrestres aqui falam
Aos homens, sempre, da semana breve,
Das mágoas que eles têm, de seus prazeres,
E de suas paixões e de seus ódios,
De sua glória e da vergonha sua,
Do que dá forças e do que mutila.
Assim nos ensinais sabedoria
Diariamente, apesar de ter-vos ido.

Ó Bardos da Paixão e da Alegria,
Vós deixastes na Terra as vossas almas!
Tendes almas também no paraíso,
Que vivem outra vez em regiões novas! 

 

Partiu o Dia

Partiu o dia, e tudo, nele, o que é doçura!
   Doces lábios e voz, mão e seio macio,
Morno alento, enlevado, encantador cicio,
   Talhe perfeito, olhar de luz, langue cintura!
Da flor e seus botões as graças não diviso!
   A visão da beleza ao meu olhar perdida,
A forma da beleza de meus braços ida,
   Idas voz e calor, a alvura e o paraíso…
Tudo se esvaneceu ao fim do entardecer,
   Quando o fusco dia santo, ou antes noite santa
Do amor de olente cortinado a trama adianta
   Da escuridão, para ocultar todo o prazer:
Mas li o missal do Amor e dormirei portanto,
Que vê o Amor como jejuo e rezo tanto. 

 

Por Que Esta Noite Eu Ri?

Por que esta noite eu ri? Não mo dirá ninguém:
   Deus algum, nem Demônio de resposta rude;
 Nem do céu nem do inferno a explicação me vem.
   Ao meu humano coração peço que ajude;
Eis-nos tristes e sós, tu e eu, ó coração!
   Dize-me, que mortal angústia! Por que ri eu?
Ó trevas! trevas! Sempre hei de gemer em vão,
   A inquirir céu e inferno, e inda o coração meu.
Oh, por que ri? Um prazo, eu sei, tem-no o meu ser,
   Seus júbilos extremos gozo em fantasia;
Porém findar à meia-noite eu poderia
   E em trapos as bandeiras deste mundo ver.
Verso, Fama, Beleza é certo que ardem forte:
Alto prêmio da Vida, é mais ardente a Morte. 

 

Endimião (1, 1-33)

Tudo o que é belo é uma alegria para sempre:
O seu encanto cresce; não cairá no nada;
Mas guardará continuamente, para nós,
Um sossegado abrigo, e um sono todo cheio
De doces sonhos, de saúde e calmo alento.
Toda manhã, portanto, estamos nós tecendo
Um liame floral que nos vincule à terra,
Malgrado o desespero, a carestia cruel
De nobres naturezas, os escuros dias,
E todos os sombreados e malsãos caminhos
Abertos para nossa busca: não obstante,
Alguma forma bela afasta essa mortalha
De nossa lúgrube alma. Assim são sol e lua,
As árvores lançando a dádiva da sombra
Às ovelhas sem mal; e assim são os narcisos
Com o mundo verde no qual vivem, e os regatos
Que fazem para si uma coberta amena
Contra a quente estação; a moita mato a dentro,
Rica de um jorro em flor de almiscaradas rosas;
E assim também é a majestade dos destinos
Que imaginamos para os mortos poderosos;
Os lindos contos que nós lemos ou ouvimos:
Uma fonte infindável de imortal bebida
Que da fímbria dos céus a nós precipita.

Nem percebemos tão-somente os mortos essas essências
Por uma curta hora; não, tal como as árvores
Que murmuram em torno a um templo logo estão
Preciosas como o próprio templo, assim a lua,
A poesia paixão, infinitos esplendores,
Obsedam-nos até tornar-se luz que incita
Nossa alma, e unem-se a nós de modo tão estreito,
Que existam sobre nós ou trevas ou fulgor,
Devem estar sempre conosco, ou bem morremos. 

 

Astro Fulgente

Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente!
  Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
   - Monge da natureza, insone e paciente -
As águas móveis na missão sacerdotal
    De abluir, rodeando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara - caída leve
  Sobre as montanhas, sobre os pântanos - da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
  No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar,
   Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meigo respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte. 

 

Untitled

Sim, eu serei teu sacerdote, e erigirei um templo
Em não trilhada região de minha mente,
Na qual os pensamentos, ramos recém-crescidos com
                                           aprazível dor,
Murmurarão ao vento em vez de teus pinheiros;
Ao longe, ao longe em torno, aquelas árvores que formam
                                                grupos negros
Emplumarão, aclive por aclive, a serra de deserta crista;
E lá os zéfiros, correntes, pássaros e abelhas
   ninharão as Dríades deitadas pelo musgo;
E, bem no meio dessa larga paz,
Adornarei um róseo santuário
Com a treliça engrinaldada de um ativo cérebro,
  E com botões, com sinos, com estrelas sem um nome,
Com tudo o que jamais pôde inventar aquela jardineira, a
                                          Fantasia,
Que, produzindo flores, não produz jamais as mesmas:
E para ti lá estará todo o prazer suave
   Que pode obter o pensamento umbroso,
Um claro archote, e uma janela aberta à noite
Para que tenha entrada o ardente Amor!

 

Ode a Psiquê

Escuta, ó deusa, os versos que, sem melodia,
Doce coerção e grata relembrança me tiraram;
Perdoa que eu module os teus segredos
Mesmo na branda concha desses teus ouvidos:
Hoje sonhei por certo; ou contemplei
Psiquê, a de asas, com olhos acordados?
Numa floresta eu caminhava descuidoso,
Mas de repente, e desmaiando surpresa,
Vi duas belas criaturas respirando lado a lado
Na relva mais profunda, sob um teto sussurrante
De folhas e flores trêmulas, em sítio onde corria

Um riacho apenas entrevisto.
Em meio às flores quietas, de raízes frias e olhos odorantes,
Azuis, branca de prata e em púrpura abotoando,
Eles se reclinavam na camada relva,
Tranquilos respirando, braços e asas enlaçados;
Os lábios desunidos, mas sem terem dito adeus,
Tal como se apartando pelo sono de mãos leves,
E ainda prontos a exceder os beijos dados
Ao madrugar-lhes pelos olhos o auroral do amor;
Reconheci o alado jovem; mas quem eras,
Ó afortunada, afortunada rola?
Sua fiel Psiquê!

Ó a mais jovem e visão de longe a mais encantadora
De toda a esmaecida hierarquia olímpica!
Mais bela que no céu safira o astro de febe
Ou Vésper, amoroso vaga-lume dos espaços;
Mais bela, embora não possuas templo
Nem altar de flores cumulado;
Nem coro virginal a erguer lamento deleitoso
Nas horas em que a noite vai em meio;
Nem voz, nem alaúde, frauta ou doce aroma
A fluir de turíbulo suspenso nas correntes;
Nem santuário, nem bosque, oráculo ou fervor
De profeta a sonhar de lábios pálidos.

Ó a mais brilhante! Embora muito tarde para antigos
                                         votos,
E muito, muito tarde para a lira apaixonada e crédula,
Quando sagrados eram os ramos assombrados da floresta,
Sagrados o ar, a água e o fogo;
Contudo mesmo nestes dias tão distantes
Do oculto afortunado, as tuas asas lúcidas,
Librando-se entre os lânguidos olímpicos,
Eu vejo e canto, por meus próprios olhos inspirado.
Assim, seja eu teu coro, e erga um lamento
A fluir do turíbulo oscilante;
Teu santuário, teu bosque, teu oráculo e o fervor por ti
Do profeta a sonhar de lábios pálidos.

 

Hiperíon (1,72 - 88)

Tal como, em extasiada noite de verão,
Senadores de toga verde das florestas,
Os soberbos carvalhos, ramas encantadas
Pelas estrelas graves, sonham toda noite
Sem mexer a folhagem, a não ser apenas
Ante o sopro grudual que, solitário e único,
Irrompe no silêncio e morre ao se afastar,
Qual se tivesse, o ar em vazante, uma só onda:
Assim essas palavras vieram e partiram,
Enquanto em lágrimas, com a larga e bela fronte
Ela tocava o chão, e o seu cabelo esparso
Tapete era de seda que Saturno usasse.
Lenta para mudar, a Lua derramava
Suas quatro estações de prata sobre a noite,
Enquanto os dois mantinham posição imóvel
Como esculturas naturais numa caverna
Catedralesca: o deus deitado inda no solo,
E a deusa, entristecida, em prantos a seus pés. 

 

Véspera de Sta. Agnes

I

Véspera de Sta. Agnes - Ah, que frio fazia!
A coruja, apesar de suas penas, tiritava;
A lebre manca fremia entre a relva em gelo,
Silente estava o rebanho no cercado lanoso.
Amorteciam os dedos do Rezador a dedilhar
O rosário, e seu frio alento semelhava
O piedoso insenso de um antigo insentário
Como se ao céu alçasse voo. Sem a morte,
Passando a doce imagem da Virgem ao rezar.

II

Finda a prece, este paciente homem santo,
Que traz a lanterna e de joelhos se ergue,
Pálido, magro e descalço percorre
Lentamente o corredor da capela.
As esculturas tumulares parecem gelar,
Alçadas aos negros balaústres do purgatório.
Cavaleiros e damas pregam nos mudos oratórios - 
Ele passa; e seu fraco espírito vacila a pensar
Como padecem nos gélidos capuzes e armaduras.

III

Volta-se entra por uma porta ao norte,
Três passos, antes que a língua dourada da música
Leve às lágrimas este pobre velho homem;
Mas não - já tocara seu sino da morte.
Os prazeres de sua vida já contados e cantados.
Seu destino, a penitência na Véspera de Sta. Agnes.
Outro rumo tomou, e logo entre
Ásperas cinzas sentou a redimir sua alma,
Desperto `noite, em pranto pelos pecadores.

IV

Este velho Rezador ouviu o suave prelúdio;
E assim foi, pois várias portas se abriam,
E vários passavam. Então lá em cima,
Trombetas de prata rosnaram a ralhar.
As câmaras no alto, prestes em seu brio,
Brilhavam a receber mil convivas.
Os anjos talhados de olhos ávidos miravam
Atentos, sob as cornijas as cabeças
Com os cabelos para trás, as asas cruzadas no peito.

V

Por fim explodiram na farra prateada,
Com plumas, tiaras e todo precioso ornamento,
Inúmeros qual espectros como fadas assolando
A mente, jovial, imersa nos alegres triunfos
Do antigo romance. Deixe-os desvanecer,
Voltemos nosso pensamento à Donzela,
Cujo coração meditara o dia todo de inverno,
No amor, na sagrada caridade alada de Sta. Agnes,
Como muito escutara das velhas damas.

VI

Contaram-lhe como, na Véspera de Sta. Agnes,
Jovens virgens poderiam ter visões de prazer,
E ser suavemente adoradas por seus amados
No mel do meio da noite,
Se os preceitos fossem bem feitos;
Então, sem ceia deveriam ir para cama,
E deitar suas belezas alvas como lírios
Sem olhar pra trás, de lado, mas pedir ao céu
Com olhos erguidos o que desejassem.

VII

Com tal capricho divagava a pensativa Madelena
Que suspirava qual um Deus em dor.
Não ouvia a música: seus divinos olhos virginais,
Fixos no chão, viram muitas longas grinaldas
Passar - ela não se importara: em vão
Haviam surgido cavalheiros saltitantes - e se foram;
Não se importando com seu desdém altivo,
Mas ela nem os vira. Seu coração pairava noutra parte.
Suspirava pelos sonhos de Agnes, os mais doces do ano.

VIII

Ela caminhava saltitante, de olhos gázeos,
Com lábios ansiosos, sua respiração arfava.
A hora sagrada estava prestes. Ela suspira
Entre os pandeiros, e o salão repleto,
Murmurante de raiva ou folguedo;
Aos olhares de amor, desafio, ódio e escárnio,
No encanto; tudo estava morto para ela,
A não ser Sta. Agnes e seus felpudos carneiros
E todo êxtase que eclodirá antes da manhã.

IX

Enquanto pensando partir a cada instante
Ela se detinha. Cruzando os prados,
Chega o jovem Porfírio, com o coração em fogo
Por Madelena. Ao lado dos portais,
Oculto da lua, ele clama aos santos
Que os regalem com a visão de Madelena,
Por um instante, nas horas amorfas,
A vislumbrar e adorar o que ainda não vira;
Talvez falar, ajoelhar, tocar e beijar - tudo se passou.

X

Ele se aventurou - nenhum sussuro conta;
Que os olhos velem-se, se não centenas de espadas
Atacarão seu coração, cidadela febril do Amor.
Pra ele, no salão havia hordas de bárbaros,
Inimigos qual hienas e lordes de sangue quente,
Cujos cães uivavam insultos
À sua linhagem. Nenhum peito guardava
Sinal de compaixão, na pérfida mansão,
A não ser uma anciã, fraca de corpo e alma.

XI

Ah, grande chance! A velha criatura,
Se arrastando com o cajado de cabeça de marfim,
Dele se aproxima. Oculto das flamas da tocha,
Atrás da espessa pilastra, muito além
Do som do júbilo e da suave canção,
Assustou-a: mas logo reconheceu-lhe o rosto,
Ela enlaçou-lhe os dedos na sua mão imóvel,
Clamando: “Por favor, Porfírio, sai deste lugar;
Todos estão aqui, esta noite, toda a raça sanguinária!”

XII

“Sai daqui! Eis Hildebrando o nanico,
Que há pouco teve febre e insultou
A ti, tua família, teu lar e terra.
Aqui está o velho lorde Maurício, nada sereno
Em seus cabelos brancos - Ai de mim! Some!
Qual espectro”. - “Ah, querida mulher,
Cá estamos tão seguros; senta nesta poltrona,
Me conta como” - “Meus Santos! Não aqui, não aqui;
Segue-me, filho, se não estas pedras serão teu túmulo.”

XIII

Ele seguiu por um corredor de arcadas,
Roçando as teias com sua alta pluma,
Enquanto ela sussurrava - “Que - Que dia!”
Ele se viu numa câmara prateada pelo luar,
Lívida, entrelaçada, fria e qual túmulo silente.
“Conte-me onde está Madelena”, disse ele,
“Oh, conte-me, Angela, pelo sagrado tear
O que ninguém alheio à confraria pode ver
A lã de Sta. Agnes ao ser piedosamente tecida”.

XIV

Sta. Agnes! Ah! É véspera de Sta. Agnes - 
Mas os homens matarão nos dias santos:
Deves reter água na peneira de uma bruxa,
E ser senhor dos elfos e das fadas,
Para te aventurares. Enche-me de espanto
Te ver, Porfírio! - Na véspera de Sta. Agnes!
Que Deus me ajude! Minha boa senhora conjura
Esta noite. Que bons anjos a iludam!
Deixa-me rir um instante, tenho tempo para lamentar.”

XV

Tênue ela ri ao lânguido luar,
Enquanto Porfírio mira-lhe a face,
Fitando qual perplexo garoto a anciã
Que mantém cerrado um lindo livro de enigmas,
De óculos ela senta ao lado da chaminé.
Logo, os olhos dele brilham, quando lhe revela
As intenções de sua amada; e ele não contém
As lágrimas, ao pensar nos frios encantamentos,
Em Madelena dormindo no colo das velhas lendas.

XVI

Ocorreu-lhe um pensamento qual rosa em flor,
Rubescendo sua fronte, e no dolente coração
Houve lauta festa. Então engendrou
Um estratagema, que fez recuar a anciã.
“És um homem cruel e impiedoso.
A doce dama, deixe-a rezar, dormir e sonhar
A sós com seus anjos, longe
De homens pérfidos como tu. Vai, vai! - penso
Não podes ser o mesmo que semelhavas.”

XVII

“Não farei mal a ela, juro por todos os antos”,
Disse Porfírio: “Não deixes alcançar a graça
Quando minha voz murmurar a derradeira prece,
Se tocar um só fio de seu cabelo,
Ou olhar com vulgar mirada sua face.
Cara Angela, por minhas lágrimas, creia-me;
Ou mesmo no lapso de um instante
Despertarei, com terrível grito, meus inimigos,
Mesmo sanguinários qual lobos, os enfrentarei.”

XVIII

“Ah Por que assustas minha fraca alma?
Coisa pobre, débil e pronta ao túmulo,
Cujo sino da morte poderá tocar até a meia-noite;
Cujas preces a cada manhã e noite,
Jamais faltaram”. Resmungando, ela consegue
Abrandar a voz do exaltado Porfírio;
Tão repleto de pesar e dor profunda,
Que Angela resolve aquiescer a sua vontade
Qualquer que fosse o resultado, bom ou ruim.

XIX

E isto para conduzi-lo, secretamente,
À câmara de Madelena, e ali o esconder
Num armário, onde incólume
Espreitaria a donzela sem ter visto,
Ganhando naquela noite uma noiva ímpar,
Enquanto legiões de fadas cruzavam os lençóis,
E o tênue sortilégio a mantinha adormecida.
Jamais amantes haviam se encontrado em tal noite,
Desde que Merlin pagara a seu Demônio.

XX

“Será como quiseres”, clamou a Anciã.
“Todos os doces e quitutes estarão lá,
Nesta noite de gala. Ao lado do bastidor
Verás o próprio alaúde. Não há tempo a perder,
Pois sou lenta, fraca e dificilmente ouso
Confiar tal tarefa a minha cabeça tonta.
Aguarda, meu filho, paciente, ajoelha-te e reza
Por um momento: Ah! Deves casar-te com a donzela,
Se não jamais deixarei o túmulo entre os mortos.”

XXI

Assim falando, ela trôpega retirou-se.
Os infindos minutos do amante fluíram lentos;
Ao retornar, a velha sussurrou a seu ouvido,
Segue-me; com os velhos olhos pasmos
E temerosos de serem vistos. Eles enfim seguros,
Após cruzar sombrias galerias, alcançaram
A câmara da donzela, sedosa, silente e casta;
Onde Porfírio mui feliz, se esconde.
Sua guia trêmula retorna.

XXII

Com a mãos trêmula sobre o balaústre,
A velha Angela tateia procurando a escada,
Quando Madelena, donzela encantada de Sta. Agnes,
Alheia, ergue-se qual espírito em missão.
À luz do círio argênteo, e com piedoso esmero,
Volve-se, e para baixo é levada pela anciã
A um tapete estendido. Agora prepara-se,
Jovem Porfírio, para que a entrevejas na cama;
Ela chega, chega como furtivo pombo correio.

XXIII

Ao entrar o círio apagou-se;
A débil fumaça esvaiu-se ao tênue luar.
Ela cerrou a porta, e arfava, em uníssono
Aos espíritos do ar, e às grandes visões.
Não pronunciava palavra, ai dela!
Mas seu coração, seu coração era volúvel,
Ferindo com sua lábia o lado emotivo;
Qual rouxinol que sem língua forçasse em vão
A garganta, e do coração morresse exausto.

XXIV

A janela esguia de três arcos,
Com guirlandas e imagens incrustadas
De frutas, flores e touças de relva,
E vitrais como diamantes ornados,
Incontáveis tintas em matizes esplêndidos,
Asas adamascadas das mariposas pintadas;
Através de mil heráldicas,
Santos crepusculares e escuros brasões,
Um escudo rubesceu ao sangue de reis e rainhas.

XXV

O luar de inverno cintilava nos vitrais,
Espargindo raios rubros ao peito de Madelena,
Enquanto de joelhos clamava a dádiva dos céus;
Botões de rosa caíam em flor às suas mãos postas,
E suave ametista incrustou-se à sua cruz,
Halou-se em seu cabelo a auréola de santa,
Semelhando anjo esplêndido, recém-vestido,
Sem asas, para o céu - Porfírio estremeceu.
Ela ajoelhou-se, coisa tão pura e imaculada.

XXVI

Reanima-se o coração. Findas as preces,
Ela despoja o cabelo da guirlanda de pérolas;
Retira uma a uma as jóias cálidas;
Pouco a pouco deslaça o perfumado corpete;
E a veste farfalhante desliza aos joelhos.
Ela, semi-oculta qual sereia nas algas,
Pensando acordada divaga, e vislumbra,
Na mente, a bela Sta. Agnes em sua cama,
Sem olhar para trás, pois quebraria o encanto.

XXVII

Logo, ela freme em seu nicho suave e gélido,
Desfalecendo e desperta, jazia perplexa,
Até que o sono cálido e opiáceo lhe oprimisse
Os membros letárgicos, e sua alma se esvaísse
Voando, qual pensamento, até o dia seguinte;
Em êxtase, alheia à dor e a alegria;
Abraçada qual missal onde o Pagão prega;
Cego ao sol e a chuva,
Como se a rosa ao botão volvesse.

XXVIII

Oculto neste paraíso, e tão encantado,
Porfírio mirava o vestido vazio,
Ouvia seu alento, como se ela por acaso
Acordasse numa ternura onírica;
Ao escutá-la, louvou aquele instante,
E suspirou. Então sorrateiro saiu,
Sem rumor, como o medo na hostil paisagem,
E pelo tapete incólume passou silente espreitando
Pelas rendas - Ah! Quão profundo ela dormia.

XXIX

Ali, ao lado da cama, onde a lua tênue
Gázea argêntea crepusculava, pôs
Suave uma mesa e, ansioso, sobre ela estendeu
Um tecido carmesim, dourado e negro.
Ah, se tivesse um atelismã de Morfeu!
O estridente clarim da festa da meia-noite,
O tímpano e o clarinete distante,
Ferem-lhe o seu ouvido, embora com o som esmaecendo.
A porta do vestíbulo cerrou todo o ruído.

XXX

Ela ainda imersa num sono de pálpebras azuis,
Nos alvos lençóis suaves alavandados,
Quando ele do armário retira fartos punhados
De maçã cristalizada, marmelo, ameixa e cabaças;
Com doces mais tenros que o creme,
E xaropes reluzentes, tintos de canela;
Maná e tâmaras, vindos dos galeões
De Fez, e especiarias, todas elas,
Da sedosa Samarcand e do Líbano de cedro.

XXXI

Essas delícias amontoou com a mão brilhando
Em pratos dourados e cestas iridescentes
De prata entrelaçada; suntuosa se dispõe
No retiro tranquilo da noite,
Espargindo na fria sala o aroma luminoso. - 
“Agora, meu amor, meu anjo seráfico, desperta!
És meu paraíso, e eu teu eremita.
Abre os olhos, por Sta. Agnes, ou adormecerei
A teu lado, de tanto que me doerá a alma.”

XXXII

Sussurrando, o braço firme e cálido
Toca seu travesseiro. O sonho dela estava
Velado pelas cortinas escuras. Magia noturna
Impossível de dissolver qual rio em gelo.
Salvas lustrosas reluzem ao luar;
Franjas douradas alomgam-se sobre os tapetes.
Como se ele jamais pudesse desenredar
De tão prolongado encanto os olhos dela;
Então pensativo, embrenhou-se em fantasias.

XXXIII

Ela acordando, ele pegou o alaúde,
Vibrante, e nas cordas mais ternas,
Tocou a balada, que há muito não se escutava,
Chamada em Provença “La belle dame sans mercy”.
Seu ouvido, tangia a suave melodia;
Quando inquieta, ela leve suspirou.
Ele parou - ela arfava - e de repente
Seus olhos azuis luzentes se abriram.
Ele ajoelhou-se, lívido qual pedra esculpida.

XXXIV

Seus olhos abriram-se, mas ela entrevia,
Já de todo desperta, a visão de seu sono.
Fora dolorosa a transformação, que quase expelia
Os êxtases de seu sonho tão puro e profundo
No qual Madelena começou a chorar,
Gemendo palavras sem sentido entre suspiros;
Enquanto firmemente fitava Porfírio;
Ajoelhado, as mãos postas e olhar piedoso,
Temendo mover-se ou falar - ela parecia devanear.

XXXV

“Ah, Porfírio!” disse ela, “mas há pouco
Tua voz suave fremia a meu ouvido,
Qual melodia a cada doce promessa;
Esses olhos tristes eram sacros e claros.
Mudaste muito! Estás pálido, frio e soturno!
Dê-me de novo aquela voz, meu Porfírio,
Aquela face imortal, aqueles caros lamentos!
Oh, não me deixes nesta eterna desilusão,
Se morreres, meu amor, não saberei onde ir”.

XXXVI

Ergeu-se, ouvindo estas palavras de volúpia
Além de homem mortal tão apaixonado,
Rubro, etéreo, qual pulsante estrela vista
Entre a paz profunda da celestial safira;
Em sonho dissolveu-se, qual rosa
Que mescla à violeta seu sutil perfume, -
Doce união. Enquanto o vento gélido sopra
Qual alarme do amor arrojando aos vitrais
O frio granizo, se pôs a lua de Sta. Agnes.

XXXVII

Está escuro; cai veloz o granizo de borrasca.
“Não é um sonho, minha esposa, minha Madelena!
“Está escuro; deliram as bruscas e frias rajadas.
“Nenhum sonho, ai de mim! É minha desgraça!
Porfírio me deixará aqui a definhar.
Cruel! Que traidor poderia aqui trazer-te?
Não te amaldiçoo, meu coração está por ti perdido,
Embora esqueças algo iludido; -
Uma pomba abandonada de asa ferida.”

XXXVIII

“Minha Madelena! Doce sonhadora! Bela esposa!
Dize, poderia para sempre ser teu abençoado vassalo?
Teu escudo em forma de coração, tinto em rubro?
Ah, santuário prateado, aqui repousarei
Após tantas horas de batalha e busca,
Um faminto peregrino - salvo por um milagre.
Embora tenha encontrado, não levarei de teu ninho
Nada que não sejas tu; pensas que podes
Confiar, bela Madelena, em algum rude infiel?

XXXIX

“Escuta! É a tormenta dos elfos da terra encantada,
Parece terrível, mas é de fato uma dádiva,
Levanta - Levanta! Chegou a manhã; -
Os beberrões jamais perceberão.
Vamos, meu amor, com alegre impulso;
Não há ouvidos a escutar, nem olhos para ver, -
Todos afogados no hidromel e no vinho de Reno.
Acorda! Levanta! Meu amor; não tenhas medo,
Além dos campos do sul tenho uma casa para ti.”

XL

Ela apressou-se nas palavras, cheia de temor,
Pois havia dragões dormindo a sua volta,
Vigiando, com armas em guarda -
No escuro embrenharam-se pela escada.
Em toda a mansão não se ouvia ruído humano.
Um lanterna cintilava em cada porta;
A tapeçaria, ornada com caçador, falcão e cão,
Tremulava ao lufar do vento que rajava;
E os longos tapetes se erguiam à ventania.

XLI

Deslizaram, qual fantasmas, pelo átrio;
Como fantasmas, flanaram ao portal de ferro;
Onde se recostava o porteiro, caído
Com uma enorme garrafa a seu lado.
O cão de caça ergeu-se, fremendo o corpo,
Mas a reclusa era dona de seu olhar.
Um por um, se abriram os ferrolhos;
Silenciaram-se os grilhões nas pedras gastas;
A chave girou, e o portal gemeu nos mancais.

XLII

Partiram. Sim, e há muito
Esses amantes escaparam na tormenta.
Naquela noite, o Barão sonhou desgraças,
Como seus convivas, com sombras e espectros
De bruxas, demônios e grandes vermes,
Teriam por longo tempo pesadelos. Angela, anciã,
Morreu de paralisia, com face disforme;
E o Rezador após mil ave-marias, esquecido,
Dormiu eternamente entre suas gélidas cinzas.

 

Sentado a Reler o Rei Lear

Ó romance de linguagem dourada, com sereno alaúde!
Bela Sereia emplumada, Rainha dos confins!
Deixa a melodia neste dia de inverno,
Cerra as velhas páginas, e te cala.
Adeus! Novamente, contenda feroz
Entre a maldição e o barro apaixonado
Devo abrasado passar; provando humilde mais uma vez
O agridoce desta fruta Shakespeariana.
Poeta maior! E vós nuvens de Albion,
Geradoras de nosso profundo e eterno tema!
Quando atravessar a antiga Floresta de carvalhos,
Não me deixeis divagar num sonho estéril,
Mas, quando no fogo me consumir,
Dai-me novas asas de Fênix para que voe a meu desejo. 

 

Visitando a Cripta de Burns

A cidade, o cemitério e o sol poente,
As nuvens, as árvores, as curvas colinas semelham,
Embora belas, frias - estranhas - um sonho,
Que há muito sonhei, e à ele retorno.
O breve pálido verão triunfou
Sobre o calafrio do inverno, por uma hora de esplendor;
Cálidas qual safiras, jamais cintilam as estrelas.
Tudo é fria Beleza; e nunca finda a dor.
Pois quem pode apreciar, sábio como Minos,
A Verdadeira beleza, livre do matiz mortal
Que a imaginação e o orgulho doentios
Te abateram? Burns! Com honra
Muito te venerei. Grande alma, oculta
Tua face; peco contra teus céus nativos. 

 

Escrito na Cabana Onde Burns Nasceu

Este corpo mortal de mil dias
Abarca agora, Ó Burns, um espaço em teu quarto,
Onde sozinho sonhaste mirando os louros a brotar,
Feliz, sem pensar em teu dia derradeiro!
Meu pulso aquece com tua própria cerveja,
Minha cabeça leve brinda uma grande alma,
Meus olhos divagam sem vislumbrar,
A Imaginação se esvai ébria em seu intento;
Mas consigo bater meus pés sobre teu chão,
Mas posso abrir uma janela para entrever
O prado sobre o qual pisaste e pisaste, - 
Mas posso pensar em ti até que cesse o pensamento, -
Mas posso tragar uma caneca de cerveja em teu nome, -
Oh, sorri em meio à treva, pois isto é fama! 

 

Sobre o Gafanhoto e o Grilo

A poesia da terra jamais cessa:
Quando todos os pássaros languescem ao sol ardente,
E se escondem nas frescas árvores, uma voz corre
De cerca em cerca ao redor do prado recém-ceifado;
É o Gafanhoto - ele rege
A luxúria do verão, - nunca finda
Suas delícias; pois, quando exaurido em alegria,
Repousa sob alguma boa erva daninha.
A poesia da terra jamais cessa.
Numa solitária noite de inverno, quando a geada
Traz o silêncio, do fogareiro sibila
O canto do Grilo, sempre mais quente,
E semelha alguém perdido na sonolência,
O do Gafanhoto entre as verdejantes colinas. 

 

Agudas, Lufadas Intermitentes

Agudas, lufadas intermitentes sibilam aqui e ali
Pelos arbustos semidesfolhados e secos;
As estrelas semelham tão frias pelo céu,
E tenho tantas milhas a trilhar.
Mas nem sinto o ar gélido e desolado,
Nem o monótono farfalhar das folhas findas,
Nem o incandescer brilhante das lanternas de prata,
Nem a distância de minha toca acolhedora.
Pois transbordo da amizade
Que encontrei numa pequena cabana;
Do ímpeto eloquente do louro Milton,
E de todo seu amor pelo gentil Lícidas afogado;
E da bela Laura em seu verde claro vestido,
E do fiel Petrarca gloriosamente coroado. 

 

Primeira Leitura do Homero de Chapman

Há muito vagueio pelos reinos de ouro,
Mirando impérios e estados prodigiosos;
Por várias ilhas ocidentais rondei
Criadas por bardos fiéis a Apolo.
Muito me contaram de uma terra vasta
Que o pensativo Homero regeu como seu domínio;
Não havia inspirado o alento de sua pura serenidade
Até que ouvi a lauta e vigorosa voz de Chapman.
Então senti-me como um desbravador dos céus
Que vislumbra um novo planeta;
Ou como o impávido Cortez que com olhos de águia
Entreviu o Pacífico - e todos os seus homens
Entreolharam-se num divagar selvagem - 
Silentes no cimo de Darien. 

 

Ode à Melancolia

I

Não, não vás ao Letes, nem retorças as raízes
Em feixes do acônito para forjar o vinho venenoso;
Nem deixes tua pálida fronte ser beijada 
Pela beladona, uva, rubi de Prosérpina;
Não faças teu rosário com as bagas dos teixos,
Nem deixes o besouro, ou a mariposa da morte
Ser tua lúgubre Psique, nem a coruja de penas macias
Ser parceira dos mistérios da tua dor;
Sombra a sombra letárgica virá,
E afogará a angústia desperta da alma.

II

Mas quando o ataque da melancolia cair
Súbito do céu qual nuvem em pranto,
Que revigora as flores cabisbaixas,
E vela a verde colina na mortalha de Abril;
Farta então a dor na rosa da manhã,
Ou no arco-íris da onda salgada na areia,
Ou na abundância das peônias globulares;
Ou se tua amada demonstrar ira intensa,
Ata-lhe a mão suave, e a deixa delirar,
E nutra-te fundo, fundo nos teus olhos ímpares.

III

Ela mora com a Beleza - Beleza que fenecerá;
E com a Alegria, cuja mão nos lábios sempre
Se despede; junto ao doloroso prazer,
Virando Veneno enquanto a boca-abelha sorve.
Sim, e no próprio templo do deleite
A velada melancolia tem seu santuário supremo,
Embora apenas o vislumbre aquele cuja língua audaz
Estala no céu da boca a uva da Alegria;
Sua alma provará a tristeza de teu poder,
E penderá em meio a seus nebulosos trofeus. 

 

Ao Outono

I

Estação de névoas e frutífera suavidade,
Amiga do peito do sol maduro;
Conspiras como ele como espargir e abençoar
Com frutas as videiras nos beirais de palha;
Arqueias com maçãs os ramos musgosos,
Preenches até o fim de madurez as frutas;
Inflas as cabaças e farta as cascas das avelãs
Com doce cerne; fazes brotar mais
E mais, flores tardias às abelhas,
Até que pensem jamais findar-se-ão os dias quentes,
Pois o Verão transbordou suas meladas colméias.

II

Quem não te viu em teu armazém?
Às vezes, aquele que procurar te encontrará
Sentada tranquila no chão do celeiro,
Teu cabelo levemente erguido pelo vento joeirante,
Ou dormindo profundo num sulco ceifado ao meio,
Entorpecida no aroma das papoulas, enquanto tua foice
Poupa a fileira seguinte e suas flores enroscadas.
E várias vezes como um colhedor manténs
Firme tua cabeça pródiga ao atravessar o riacho;
Ou ao lado de uma prensa de cidra, com olhar paciente,
Contemplas as derradeiras horas viscosas.

III

Onde estão as canções da Primavera? Sim, onde estão?
Não penses nelas, tens tua música também, - 
Nuvens como estrias brotam no dia que suave se esvai,
E tangem com rósea cor os restos dos campos desnudos;
Num coro-lamento pranteam os mosquitos
Entre os salgueiros do rio, no alto
Ou imersos quando a tênue brisa vive ou fenece;
E grandes carneiros berram no riacho das montanhas;
Grilos cantam; e agora com suave trinado
O papo-roxo sibila do jardim,
Andorinhas gorjeiam nos céus. 

 

Ode a Um Rouxinol



Doi-me o coração, e um torpor letárgico
Fere meu sentido, como se tomasse cicuta,
Ou ingerisse até o fim algum ópio
Instantes atrás, e ao Letes me precipitasse.
Não que inveje teu alegre destino
Mas por ser feliz com tua alegria - 
Que tu, Dríade das leves asas,
Num lugar melodioso
De faias verdes, e sombras incontáveis,
Celebras a plena voz teu canto de verão.

II

Oh! Gole farto de vinho velho!
Fresco há muito no profundo coração da terra,
Com sabor da Flora e verdes prados,
Dança e canção Provençal, alegria queimada de sol!
Oh! taça plena do quente Sul
Cheia da vera e rubra Hipocrene
Com borbulhas qual contas piscando nas bordas,
Boca tinta de púrpura;
Se pudesse beber, e sumir deste mundo,
E contigo desvanecer na escura floresta.

III

Desvanecer, dissolver e deslembrar
O que tu entre as folhas jamais conheceste
O fastio, a febre, e o frêmito
Aqui, onde os homens sentam e se escutam gemer;
Onde a paralisia agita os últimos parcos cabelos brancos,
Onde os jovens empalidecem, e morrem qual espectros;
Onde apenas pensar causa a dor
E o desespero dos olhos plúmbeos,
Onde a Beleza não pode suster seus olhos brilhantes,
Nem um novo Amor definhar mais um dia.

IV

Longe, Longe! A ti voarei,
Não na carruagem de Baco e seus leopardos,
Mas nas invisíveis asas da Poesia
Embora o turvo cérebro retarde e confunda.
Já contigo! Suave é a noite,
E talvez a Rainha Lua esteja em seu trono
Cercada por suas Fadas estelares;
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que do céu com as brisas sopra
Pelas glaucas trevas e sendas sinuosas de musgo.

V

Não vejo que flores estão a meus pés,
Nem qual suave incenso dos ramos exala,
Mas, na treva embalsamada, desvelo o aroma
Que cada mês regala
A relva, a coifa, as frutíferas árvores silvestres;
Branco pilriteiro e madresilva pastoral;
As violetas que cedo murcham veladas sob as folhas;
E a primeira filha dos meados de maio,
A rosa de almiscar, no vinho de orvalho imersa,
Murmúrea paragem de moscas das tardes de verão.

VI

No escuro escuto; por várias vezes
Que tenho sido seduzido pela suave morte,
Lhe dando ternos nomes em versos refletidos,
Para que pegasse no ar meu sutil alento;
Nunca como agora me parece tão boa a morte,
Findar a meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto tu em torno desvanesces a alma
Neste êxtase!
Ainda cantarias, e de nada valeriam meus ouvidos - 
A teu alto réquiem em terra transformado.

VII

Não nasceste para a morte, Ave imortal!
As gerações famintas não pisam em ti;
A voz que escuto esta noite foi ouvida
Pelo palhaço e o imperador nos tempos remotos.
Talvez a mesma melodia que encontrou lugar
No triste coração de Rute, quando, saudosa do lar,
Chorou entre o trigo estrangeiro;
A mesma que várias vezes encantou
As mágicas janelas, abertas sobre a espuma
Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas.

VIII

Perdidas! Esta palavra é como um sino
Que, dobrando, me faz voltar a mim mesmo!
Adeus! A fantasia não pode tanto iludir
Como parece, ó elfo ludibriador.
Adeus! Adeus! Teu hino pungente se esvai
Além dos prados vizinhos, sobre o tranquilo riacho,
Subindo o monte; é agora profundamente enterrado
Nas clareiras do vale ao lado.
Foi esta uma visão ou sonhei desperto?
A música se foi: - Estarei dormindo ou acordado? 

 ODE A UM VASO GREGO


I

Tu, noiva ainda não desvirginada da quietude,
Tu, criada pelo silêncio e o tempo lento,
Historiadora silvestre, que podes assim expressar
Um conto floral mais suave que nossa rima.
Que lenda de friso de folhas se oculta sob teu traçado
De divindades ou mortais, ou ambos,
No Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou Deuses são eles? Que donzelas relutantes?
Que louca perseguição? Que luta para escapar?
Que flautas e pandeiros? Que êxtase selvagem?

II

As melodias são doces, mas aquelas não ouvidas
São mais doces; desta maneira, vós, suaves flautas, soai;
Não ao ouvido sensorial, mas, ternamente,
Toquem as melodias espirituais do não-som.
Belo jovem, sob as árvores, não deixarás
Tua canção, como jamais perderão as árvores suas folhas;
Amante audacioso, nunca, nunca beijarás
Embora perto de tua meta - não te aflijas;
Ela não se desvanecerá, e embora não tenhas o deleite,
Sempre amarás, e será ela sempre bela!

III

Ah! Os ramos alegres, alegres! Que não perdereis jamais
Vossas folhas, nem vos despedireis da primavera;
E, músico feliz, incansável,
A tocar melodias sempre novas;
Mais amor feliz! Mais feliz, feliz amor!
Eternamente cálido e para sempre a ser gozado,
Continuamente palpitante e sempre jovial;
Todos eles suspirando a intensa paixão humana,
Que deixa o coração aflito e saciado,
A cabeça quente, e a língua seca.

IV

Quem são aqueles indo ao sacrifício?
A que verde altar, Ó misterioso sacerdote,
Conduzes aquela bezerra berrante aos céus,
E todos seus sedosos flancos com guirlandas?
Qual cidade à beira da praia ou rio,
Ou na montanha cercada por muralhas,
Que está deserta, nesta sagrada manhã?
E, na pequena cidade, tuas ruas sempre estarão
Em silêncio, pois ninguém que poderia contar
Porque estás deserta voltará.

V

Ó estilo Ático, bela Atitude!
De homens e donzelas forjados em mármore,
Com ramos silvestres e relva pisada;
Tu, forma silente, arroja-nos ao sortilégio
Qual a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice arruinar esta geração,
Permanecerás, em meio a outro infortúnio
Que não o nosso, amigo do homem, a quem proferes,
“A Beleza é Verdade, a Verdade Beleza” - isto é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber. 

 

Meg Merrilies

I

Velha Meg era uma cigana,
Que vivia pelos descampados.
Sua cama a relva castanha,
E sua casa os caminhos.

II

Suas maçãs as negras amoras,
Suas passas as vagens de giesta;
Seu vinho o orvalho da rosa silvestre,
Seu livro a estrela das criptas.

III

Seus irmãos os troncos dos pinheiros,
Suas irmãs as pedras das encostas;
Só com esta grande família
Ela vivia como queria.

IV

Nenhum desjejum de manhã
Sem almoço ao meio-dia
Em vez de jantar contemplava
De olhos arregalados a lua.

V

A cada manhã com trepadeiras
Engendrou suas guirlandas,
Cada noite com o teixo do vale
Tecia, e cantava.

VI

Com seus dedos velhos pardos
Trançava tapetes de junco,
E os dava aos camponeses
Que encontrava pelos arbustros.

VII

Tão valente quão a Rainha Margaret
E alta como uma Amazona.
Vestia velha capa vermelha;
E um barato chapéu.
Deus permita que seus ossos repousem - 
Há muito tempo ela morreu!

 

A Morte

I

Pode a morte ser sono, se a vida não é mais que sonho,
E se as cenas de êxtase passam qual espectros?
Os prazeres transitórios semelham visões,
Mas pensamentos a morte como a grande dor.

II

Como é estranho o vagar do homem na terra
Em sua vida maldita não pode desvencilhar
O rude caminho; nem ousa sozinho entrever
Seu augúrio futuro que não é senão despertar.

Ao Gato

Gato, já está em idade avançada,
Quantos camundongos e ratos em sua vida comeu?
Quantos petiscos roubou?
Olhe com estes lânguidos e brilhantes segmentos de verde,
Ergue as orelhas de veludo
Mas por favor não espetes tuas garras latentes em mim
E mia mais alto - e me conta suas contendas
Por peixes, camundongos, ratos e tenros galetos.
Não, não baixes os olhos nem lambas teus punhos delicados.
Apesar do teu arfar asmático, apesar de teu rabo cortado,
Apesar de muitas empregadas te terem batido,
Tua pele ainda é tão suave como quando duelavas
Na juventude sobre os muros entre cacos de vidro.

 

Feliz Aniversário, querido John! :D


MULHERES, VINHO E RAPÉ


Dê-me mulheres, vinho e rapé
Até que grite “Chega!”
Pode fazê-lo sem objeção
Até o dia da ressureição;
Abençoe minha barba pois esta é
Minha adorada Trindade.

No Mar

Ele sustém eternos murmúreos
Nas praias desoladas, e com suas soberbas cristas
Inunda vinte mil cavernas, até que o sortilégio
De Hécate as deixe com seu velho e assombroso som.
Muitas vezes se encontra tão tranqüilo,
Que até a menor das conchas permanece dias imóvel
Desde o desenlace dos ventos celestiais.
Vós, cujos olhos se enchem de tormento e tédio,
Regojizai-os com a imensidão do mar;
Vós, cujos ouvidos estão atordoados pelo rude ruído,
Ou enfastiados pela música melosa - 
Sentai-vos na boca de uma velha caverna, e meditai
Até que escuteis, como se cantassem, as ninfas do mar! 

Escrito No Cimo do Ben Nevis

Leia-me a prece, Musa, e em voz alta
No cimo do Nevis, velado na névoa!
Miro os abismos, e uma mortalha
De vapor os encobre - tal qual
O conhecimento do homem sobre o inferno; ergo os olhos
E vejo a soturna neblina - tal qual,
Tão vago quanto o conhecimento do homem sobre si mesmo!
Aqui estão as pedras ásperas sob meus pés -
E tudo o que sei, eu, um pobre e tolo elfo,
É que piso sobre elas - tudo o que meus olhos veem
É neblina e rochas, não apenas nestas alturas,
Mas no mundo do pensamento e poder mental! 

Repousando sobre os belos seios do meu amor
Sentir para sempre seu suave enrijecer
E abrandar para sempre acordado em um doce despertar
Imóvel, imóvel para ouvir o seu delicado respirar
Brilho da minha paixão,
Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente
Não suspenso da noite com uma luz deserta.